O fundador que deixou de usar ferramentas genéricas e construiu as suas com IA
O criador do Google Docs construiu um sistema para filtrar o que entra na sua cabeça antes de você saber que existe.
A TESE
Vibe-coding não é sobre abandonar disciplina de engenharia. É sobre usar IA como extensão direta da sua intenção, sem especificação rígida e sem cerimônia. Steve Newman, criador do Writely (que se tornou o Google Docs) e fundador do Golden Gate Institute for AI, chegou a uma conclusão que importa: ferramentas digitais genéricas destroem atenção, e a resposta prática é construir as suas próprias ferramentas, calibradas para o seu modo de pensar.
O QUE A MAIORIA ESTÁ ERRANDO
O mercado ainda trata IA como acelerador de tarefas que já existiam. Você pega o Notion, o Slack, o Gmail, e tenta encaixar um copiloto por cima. O resultado é um sistema de atenção fragmentado que responde a entradas de terceiros o tempo todo. Newman chama isso de problema de atenção, não de problema de produtividade. A distinção importa porque produtividade tenta fazer mais coisas, enquanto atenção decide quais coisas merecem existir no seu radar.
O erro concreto é delegar o filtro de informação para plataformas que têm incentivo de te manter engajado, não de te manter focado. Newsletters, feeds, notificações: tudo isso é projetado para maximizar cliques, não para maximizar clareza de pensamento. Enquanto a maioria instala mais aplicativos de produtividade, Newman foi na direção oposta e construiu um firewall de atenção personalizado, um sistema que filtra o que entra na sua cabeça antes de você saber que existe.
Quase ninguém usa IA para construir infraestrutura de cognição própria. A maioria prefere usá-la para automatizar tarefas que já faziam de outra forma, e essa escolha tem um custo invisível que se acumula todo dia.
O QUE OS MELHORES ESTÃO FAZENDO
Newman é o caso mais concreto e documentado que conheço dessa mudança de mentalidade. No episódio da Cognitive Revolution, ele detalha um conjunto de ferramentas que construiu com IA para uso pessoal: um firewall de atenção que filtra o que merece chegar até ele, um aplicativo de leitura com curadoria própria, um painel de agentes de código, automações de fluxo de trabalho e um sistema universal de logging para depurar decisões com o Claude.
O princípio que une tudo isso é o que ele chama de filosofia anti-tokenmaxxing: em vez de tentar extrair o máximo possível de cada prompt, construa sistemas que funcionam com o mínimo de fricção cognitiva, que operam em segundo plano e que preservam sua capacidade de pensar com clareza.
Quem está à frente nessa virada não está comprando mais ferramentas SaaS. Está usando IA para construir os próprios sistemas internos, e a diferença de resultado entre os dois grupos vai se ampliar nos próximos anos.
MINHA VISÃO
O conceito de firewall de atenção deve sair do nicho de pioneiros e se tornar conversa de liderança executiva até 2027. Não porque executivos vão se tornar desenvolvedores, mas porque os profissionais que já construíram esses sistemas vão ser visivelmente mais eficazes, e a diferença vai ficar impossível de ignorar.
A lógica que Newman demonstra é clara: se IA barateia a construção de software, o custo de ter ferramentas personalizadas cai para quase zero. A única barreira que sobra é a clareza sobre o que você precisa. Quem consegue articular seus próprios processos de cognição consegue construir ferramentas que os respeitam. Quem não consegue vai continuar usando ferramentas genéricas otimizadas para engajamento, não para foco.
No contexto brasileiro, esse movimento ainda está na fase de curiosidade. Os fundadores que vão liderar suas categorias nos próximos dois anos provavelmente são os que estão, hoje, experimentando construir seus próprios sistemas, mesmo que pequenos, mesmo que imperfeitos.
A PERGUNTA QUE EU DEIXO
Se você pudesse construir uma única ferramenta que filtrasse o que entra na sua atenção todo dia, o que ela excluiria primeiro, e por quê?